nós, ostras
- 21 de mar.
- 3 min de leitura
Por Hadassa Paravizo
O título não é por acaso, funciona quase como uma cacofonia do bem, gostosa e querida. Nós e ostras, juntas, postas lado a lado, soam como nosotras, a primeira pessoa do plural, no feminino, em espanhol. Espanhol que, a depender do mês, escuto aqui na ilha até mais do que o português.
Nosotras também é a palavra que tenho tatuada no pé esquerdo. Ela me lembra tanta coisa, tanta gente, amigas, lugares por onde já morei e vivi: Jundiaí, São Paulo, Barcelona, Antuérpia, Santiago, Florianópolis.
De onde a gente vem, para onde vai e por onde a gente passa faz diferença. Muda a nossa história, a nossa crônica. É por isso que eu queria falar das ostras — das ostras de Floripa. Assim como nós, elas também têm geografia, identidade, jornada.
Antes de tudo, um dado que ancora essa história: a capital de Santa Catarina é, também, a capital nacional da ostreicultura, responsável por mais de 90% da produção de ostras de todo o país. É “coza linda”. É “baita”.

O mais curioso: a história da ostra mais cultivada por aqui começa lá do outro lado do mundo. Foi na década de 80 que professores da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) tiveram a iniciativa de introduzir a ostra-do-pacífico (Crassostrea gigas), originária do Japão, em águas manezinhas. Foi ali, entre Santo Antônio de Lisboa e Sambaqui, que tudo começou.
Não é que a ostra gostou daqui?
Cresceu rápido, se adaptou super bem; desde então, graças à ciência, à pesquisa da universidade e de outros órgãos públicos, graças a produtores dedicados e a uma população que sabe o que é bom, a ostra virou hábito: natural, ao bafo, gratinada. Na praia, no centro, na costa e, claro, no Ribeirão, outro berço desse marisco.
Não à toa, a Ostra de Floripa está, junto ao INPI, pleiteando um selo distintivo: a Indicação Geográfica (IG). O INPI, Instituto Nacional da Propriedade Industrial, é uma autarquia federal que protege aquilo nascido da criação, da invenção e da singularidade — aquilo que é novo, diferente e não pode simplesmente ser copiado. Por meio desse órgão se registram marcas, desenhos industriais, se concedem patentes, se protegem topografias de circuitos integrados e se reconhecem Indicações Geográficas. Em comum, todos esses instrumentos garantem algo fundamental: exclusividade, reconhecimento e segurança jurídica para quem cria, produz ou inova.
No caso das Indicações Geográficas, o que se reconhece é o vínculo real entre um produto e o território de onde ele vem, mapeando como esse território molda o que ele é.
As IGs possuem duas espécies diferentes:
• A Indicação de Procedência (IP): que reconhece um lugar por aquilo que produz, pelos seus modos de fazer, pela repetição e pela reputação construída no tempo.
• A Denominação de Origem (DO), mais exigente: que reconhece quando as características do produto dependem diretamente daquele território (da água, do clima, do manejo e do saber coletivo de quem produz).
Em ambos os casos, o que se protege não é só o produto, nem só o lugar, mas a relação entre os dois; afinal, o nome de um território vira parte do produto porque ele só é o que é, ali. Na prática, isso significa duas coisas simples: o consumidor tem ao seu alcance algo mais autêntico e de qualidade; o produtor, mais giro econômico e pertencimento.
Enquanto a Ostra de Floripa segue em avaliação para conquistar esse reconhecimento oficial, a gente, por aqui, já vai reconhecendo o sabor e o frescor pedindo aquela dúzia, um pastelzinho de berbigão para acompanhar e, quem sabe também, um suco gelado de butiá.
A Ostra de Floripa nos ensina que origem não é só de onde se vem, mas onde se cria vínculo, onde se desenvolve. As ostras vieram do outro lado do mundo e aprenderam essa água, esse tempo, esse jeito. E nós também seguimos nos fazendo onde ficamos. Nós, ostras.
PARA CONHECER DE PERTO A OSTREICULTURA DE FLORIANÓPOLIS
Visite o Paraíso das Ostras, Fazenda Marinha. Rod. Baldicero Filomeno, 20622 – Ribeirão da Ilha, Florianópolis – SC
PARA COMPLEMENTAR O MENU
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PARA LER, SEM SAIR DA TEMÁTICA
“Ostra feliz não faz pérola”, Rubem Alves




