camping como oportunidade de conexão
- 21 de mar.
- 4 min de leitura
Por Wanessa Sêmola
Eu não cresci acampando. Na verdade, o oposto. Aos 18 anos, eu era aquela garota de apartamento que se desesperava com qualquer inseto
A primeira vez que acampei foi a convite do meu então namorado (hoje marido), em uma praia do Rio de Janeiro, com barraca emprestada e pouca estrutura. Choveu de madrugada. A barraca estava furada, ficou cheia de mosquitos e areia grudando em um colchão que mais parecia uma esteira. Não vi sentido algum em trocar minha cama confortável por aquilo.
Quase 12 anos depois, já casada e com um filho de 4 anos, algo mudou.
Eu já entendia, como educadora, a importância da natureza na infância e o impacto no desenvolvimento, mas foi só aí que comecei a enxergar o camping como uma oportunidade, não como desconforto.

Era uma sexta-feira à tarde quando comentei com meu marido que estava pensando em tentar novamente. Na mesma noite ele comprou barraca com blackout, colchão autoinflável, fogareiro e a estrutura mínima para uma experiência confortável. Sem luxo, mas sem perrengue. Ele não me deu tempo para desistir e fomos. Não porque os mosquitos tinham acabado ou porque o colchão havia ficado mais macio. Mas porque meu olhar se voltou para o que estávamos construindo como família.
Naquele primeiro camping com nosso filho, algo se reorganizou entre nós. Viramos equipe. Um montava a barraca, outro organizava os colchões, outro cuidava da comida e todos cuidavam do fogo para que não apagasse. Ganhamos organização e praticidade quase sem perceber. Uma sincronia nada ensaiada, apenas funcionando pelas percepções de cada um sobre as necessidades do momento.
Lembro de uma noite simples: coraçãozinho de frango assando na mini churrasqueira, macarrão, céu com estrelas e o som das ondas do mar. Era tudo tão essencial que senti o coração inundado por aquela gratidão que faz você olhar para trás e agradecer por cada passo que te levou exatamente até ali.
Mas a cena que mudou tudo foi outra: meu filho, com 4 anos, em plena era digital, deitado no chão olhando o céu estrelado por horas. Sereno. Curioso. Naquele momento entendi que o camping passaria a fazer parte da nossa vida.
Quando acampamos, não somos regidos pelo relógio. Acordamos quando o sono termina. Comemos quando a fome chega. Dormimos quando o corpo pede. Esse ritmo mais orgânico nos devolve algo que a vida urbana nos tira — presença.
Sem notificações, sem agenda apertada, sem compromissos, começamos a enxergar o que normalmente passa despercebido: as folhas balançando nas árvores, o cheiro da lenha queimando, o silêncio que é cheio de vida e o tempo calmo.
A correria do cotidiano nos rouba o encantamento pela simplicidade. Assim como as luzes da cidade apagam a beleza do céu estrelado. Lembro de uma noite em que vimos estrelas cadentes. Meu filho comentou que ver o céu “de verdade” era mais bonito do que o planetário. Aquela frase me atravessou.
Há algo profundamente educativo em tudo isso.
Quando a criança experimenta o mundo sem filtros, sem telas, sem efeitos especiais, ela aprende a se encantar com o real. Ela aprende a perceber que o extraordinário está no simples. Aprende que a natureza não é cenário, é experiência e que faz parte dela. Ela aprende a respeitar o ambiente porque percebe sua própria pequenez; que o mundo não gira em torno da sua vontade, mas que ela pode encontrar beleza e aprendizado no imprevisto.
O camping ensina sem discurso. Ensina autonomia quando a criança organiza seus pertences, cooperação quando cada tarefa é compartilhada, resiliência quando o desconforto aparece, criatividade quando o tédio chega e o brinquedo é um graveto. Acampar fortalece vínculos de uma maneira que poucas experiências conseguem. Porque, ali, somos família o tempo inteiro; sem distrações, sem fuga, só nós, a natureza e o tempo presente.

Nossos melhores acampamentos foram no outono. As temperaturas são mais amenas, os campings ficam mais tranquilos, o vento é fresco e a experiência se torna ainda mais acolhedora.
Foi em uma noite de outono que fomos surpreendidos por um meteorito rasgando o céu como se fossem fogos de artifício. Certa vez, também no outono, acampamos sozinhos em um camping enorme, tendo como única companhia uma família de capivaras que apareceu enquanto fazíamos um lanche antes de dormir.
O camping se tornou tão parte da nossa identidade que, há 5 anos, comemoramos o aniversário do nosso filho acampando. Uma celebração simples, mas farta de conexão, aventura e presença. E, sem perceber, acabamos inspirando outras famílias a viverem o mesmo. O “aniversário no camping” virou tradição, um evento esperado durante o ano inteiro.
Hoje eu entendo: acampar não é sobre abrir mão do conforto de uma cama. É sobre reorganizar prioridades, sobre ensinar aos filhos que felicidade não exige excesso, exige conexão. Acho que era exatamente isso que aquela garota de apartamento precisava aprender para transformar a própria história e oferecer ao seu filho uma infância diferente, transformando, também, a forma de educar.
PARA QUE O ACAMPAMENTO SEJA AGRADÁVEL é importante ter equipamentos de qualidade como barraca, colchão ou saco de dormir, coberta (dependendo da estação), lanterna de cabeça, itens de cozinha de camping e comidas práticas (como arroz de saquinho, macarrão, atum enlatado e proteínas cozidas embaladas a vácuo que dispensam refrigeração)
ALGUMAS OPÇÕES PARA QUEM DESEJA VIVER ESSA EXPERIÊNCIA nos arredores de Florianópolis
CAMPINGS ESTRUTURADOS, IDEAIS PARA FAMÍLIAS INICIANTES: Palmas das Gaivotas (em Governador Celso Ramos), Cascata Encantada (em Paulo Lopes), Lagoamar (em Garopaba) ou Camping Pinheira (na Palhoça)
EXPERIÊNCIAS MAIS SELVAGENS E INTEGRADAS À NATUREZA, PARA OS AVENTUREIROS: Lagoinha do Leste ou na Praia do Saquinho (na Costa da Lagoa), ambos em Floripa



