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a onda é ter responsabilidade ambiental

  • 23 de jun.
  • 4 min de leitura

A indústria do surfe, apesar da conexão direta com a natureza, carrega um paradoxo pouco discutido: a produção de pranchas envolve químicos agressivos, resíduos contaminados e impactos ambientais relevantes. É justamente nesse ponto que algumas escolhas começam a separar as marcas


À frente da SRS Surfboards, única licenciada da Channel Islands no Brasil, Rodrigo Silva construiu sua operação a partir de uma lógica pouco comum no mercado: assumir responsabilidade por tudo o que acontece durante o processo de produção de uma prancha, principalmente pelo que ninguém vê.


Há mais de duas décadas, ele vem criando sistemas próprios de controle ambiental, gestão de resíduos e eficiência operacional dentro de uma fábrica que carrega a chancela de uma das marcas mais emblemáticas da história do surfe. O que vemos por trás do produto é um raro exemplo de excelência, responsabilidade e consciência ambiental dentro de um mercado onde pouco se fala sobre ESG (Environmental, Social and Governance - Ambiental, Social e Governança).


Rodrigo, quando alguém olha o preço de uma prancha, o que não se vê sobre o processo de produção?


Não dá para ver o que acontece por trás de todo o processo produtivo, como sistemas de controle de emissões, armazenamento e descarte correto de resíduos químicos, equipamentos de proteção, mão de obra especializada e o tempo envolvido em fazer tudo dentro do padrão.


Quais são os pontos mais sensíveis da produção, em termos de impacto ambiental?


Principalmente a laminação, pelo uso de resinas, catalisadores e solventes, além do pó da lixa e do shape, que também são críticos tanto para o meio ambiente quanto para a saúde de quem trabalha. Ainda existe o consumo de água, energia e o uso de materiais não recicláveis.


É importante frisar que uma fábrica de pranchas de surfe gera mais resíduos do que produtos. Em média, para uma prancha de 2,7kg são gerados em torno de 3,5kg de resíduos contaminados.

O que acontece com os resíduos gerados nesse processo?


Fonte: Cadu Zahran
Fonte: Cadu Zahran

Quando o processo é feito corretamente, os resíduos são separados, armazenados e destinados para empresas homologadas que fazem o encaminhamento para aterro industrial. O problema é que isso custa dinheiro e exige estrutura. O descarte correto envolve transporte especializado, documentação e empresas licenciadas. Muita gente simplesmente ignora essa etapa e transfere o problema para o meio ambiente, praticando preços mais baixos.


Em algum momento passou pela sua cabeça "simplificar" esse processo?


Seria o caminho mais fácil, mas não faz sentido construir algo sólido baseado em práticas erradas. No longo prazo, o preço sempre aparece — seja ambiental, seja moral.


Como funciona hoje o controle e a fiscalização da sua operação?


Atualmente, seguimos todas as exigências do licenciamento ambiental e participamos do projeto “Carbon OK”, em parceria com a Ambiens. Existe um controle interno rigoroso, treinamento da equipe e monitoramentos frequentes de emissão, armazenamento e descarte. Tudo precisa estar documentado. Não é opcional, é parte da operação.


Qual foi o maior investimento que você fez que o cliente nunca vai perceber?


Investimento em treinamento, valorização da equipe e uma estrutura de segurança e controle ambiental com sistemas de exaustão, tratamento de resíduos e adequação de espaço. Isso não aparece na prancha, mas é essencial para que a equipe trabalhe com segurança e entregue o melhor produto possível.


Você acredita que o cliente entende esse valor hoje?


Parte do público já entende o valor de um produto feito com responsabilidade ambiental e processos corretos. Outra parte ainda compara apenas preço, sem enxergar tudo o que existe por trás da produção.


Existe hipocrisia dentro do mercado do surfe quando o assunto é sustentabilidade?


Essa é uma pergunta polêmica, mas sim, existe muita hipocrisia. O surfe vende natureza e um lifestyle consciente, mas isso nem sempre aparece na produção ou nas escolhas feitas pelo próprio consumidor.


O que ainda precisa mudar na indústria?


A fabricação de pranchas de surfe ainda é muito artesanal e pouco percebida pelas autoridades. Não existem regras claras para a indústria e esse seria um ponto importante de mudança.


Enquanto isso não acontece, consciência, transparência e responsabilidade seguem sendo os caminhos mais viáveis — não só marketing verde, mas prática real.

O que você está buscando melhorar hoje dentro da sua produção?


Trabalhamos três pilares básicos na escolha de produtos, equipamentos e processos: melhoria do ambiente de trabalho, redução na geração de resíduos e melhora na qualidade do produto final. Nos últimos anos, começamos a investir em secagem de resina por fotopolimerização. Com câmaras UV, conseguimos reduzir em cerca de 15% o uso de resina e em 75% os catalisadores, além de melhorar significativamente o ambiente da área de laminação, com menor emissão de gases.


Existe alguma tecnologia ou material que pode mudar esse cenário?


Sim, existem resinas menos tóxicas, materiais recicláveis e novos métodos de construção, mas que ainda precisam evoluir em escala e performance. Acredito também que a impressão 3D possa ser uma alternativa no futuro.


Como você imagina a prancha do futuro, em termos de impacto ambiental?


É difícil dizer, mas gosto de pensar que a produção pode ser mais limpa desde a origem até o descarte – menos tóxica e com possibilidade real de reaproveitamento. A evolução vai acontecer, a questão é quem vai escolher fazer parte dela.

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